sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Vida e Obra

Por: Sulamita Siliprandy

Walter Benjamin tem uma vida e uma obra que, por mais que se tente evitar cair no biografismo, tendem a não se separar. Seu nome completo era Walter Benedix Schönflies Benjamin. Quando nasceu, seus pais tiveram a ideia de que ele poderia se tornar um escritor, então lhe deram esses dois nomes do meio, para que ninguém notasse imediatamente que ele era judeu.
Segundo Seligmann-Silva (2010:16), Benjamin era um nômade por paixão e convicção. O autor foi forçado a se deslocar constantemente ao longo de sua vida e por conta disso, passou a maior parte da sua vida em trânsito.
A escrita do autor é fragmentada e, para ele, escrever a história é citar a história. Sua obra mais ambiciosa (Passagens), totalmente composta por citações e fragmentos, não foi concluída e deixou abertos muitos caminhos que o livro teria fechado definitivamente.
Em 1940, sua biblioteca foi apreendida junto com seus manuscritos na busca realizada pela Gestapo em seu apartamento em Paris (metade de seus livros ficou preso na Alemanha). Hannah Arendt (2008:184) questiona: “Como viveria sem uma biblioteca, como poderia ganhar a vida sem a imensa coleção de citações e excertos em seus manuscritos?”.
No dia 26 de setembro do mesmo ano, ao tentar atravessar a fronteira franco-espanhola, Benjamin tira sua própria vida por medo de cair em mãos inimigas ao saber que as autoridades fecharam a fronteira e anunciaram que não reconheceriam os vistos de entrada. No dia seguinte, a fronteira foi reaberta e permitiu-se a passagem dos que o acompanhavam.



REFERÊNCIAS


ARENDT, Hannah. “Walter Benjamin: (1892-1940)” in Homens em tempos sombrios. Trad. Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

SARLO, Beatriz. Sete ensaios sobre Walter Benjamin e um lampejo. Trad. Joana Angélica. Rio de Janeiro: UFRJ, 2013.

SELIGMANN-SILVA, Márcio. “Walter Benjamin” in A Atualidade de Walter Benjamin e Theodor W. Adorno. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.




A Escrita: Constelação de Citações

Por: Sulamita Siliprandy

A escrita de Benjamin é fragmentada e para ele, “Escrever a história significa [...] citar a história.”. Segundo Sarlo (2013), a sua paixão pela citação habitava tudo o que escreveu.
            Ele ambicionava escrever um livro inteiro só de citações. Esta obra seria Passagens, porém ficou inacabada. Para este livro, o autor reuniu centenas de citações, fotografias, fichas, recortes e esboços.
            Seu olhar era fragmentário, procurava incessantemente a totalidade nos detalhes quase imperceptíveis.  Ele tinha o dom de encadear as citações, modelá-las e cortá-las como se fossem uma estrutura pessoal. Com esse jeito diferente de escrever, manteve uma relação original, poética e correspondente a um método de composição recorrendo à noção de intertextualidade.
            Essa obsessão se deve a descoberta que Benjamin teve com a lembrança proustiana. Esta seria a condenação, ao mesmo tempo em que seria uma marca genial em sua obra: nada pode ser acabado por completo. Além disso, Benjamin era colecionador e apaixonado por suas coleções. Ele notou que o trabalho de leitura é cumulativo e infinito. Assim como suas coleções, seu trabalho de leitura é sempre incompleto.



REFERÊNCIAS


KOTHE, Flávio. Para Ler Benjamin. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976.

SARLO, Beatriz. Sete ensaios sobre Walter Benjamin e um lampejo. Trad. Joana Angélica. Rio de Janeiro: UFRJ, 2013.

O dia em que Walter Benjamin daria aulas na USP

Por: Sulamita Siliprandy

No início da década de 1930, criou-se uma comissão responsável por convidar sábios e especialistas europeus para formar o corpo docente da Universidade de São Paulo.
Certo dia, o pesquisador alemão Karlheinz Barck descobriu uma surpreendente correspondência entre Erich Auerbach e Walter Benjamin. Nesta carta, o autor de Mimesis declarava que havia pensado em Benjamin para uma possível temporada brasileira como professor de literatura alemã na USP.
Com essa descoberta, Michael Löwy sugere a possibilidade de um escritor brasileiro inventar uma narrativa na qual o pensador alemão viria dar aulas no Brasil. É nesse momento que Evando imagina uma possível resposta à proposta de Auerbach.
Por conta das perseguições nazistas, professores de grande notoriedade viajavam regularmente para os Estados Unidos. Foi o caso de Theodor W. Adorno e Max Horkheimer, amigos de Benjamin. Porém, intelectuais que não possuíam credenciais similares aventuravam-se na América do Sul.
Logo, a oferta de trabalhar no Brasil poderia ser uma grande oportunidade para Benjamin. Até porque o cargo de professor na Universidade de São Paulo tornaria irrelevante o insucesso acadêmico de A origem do drama barroco alemão — texto reprovado na austera academia alemã.
O conto de Evando Nascimento foi intitulado como “O dia em que Walter Benjamin daria aulas na USP” e encontra-se no livro Cantos do Mundo.



REFERÊNCIAS


NASCIMENTO, Evando. “O dia em que Walter Benjamin daria aulas da USP” in Cantos do mundo. Rio de Janeiro: Record, 2011.

ROCHA, João Cezar de Castro. “A Ficção de Evando Nascimento”. Disponível em: <http://rascunho.gazetadopovo.com.br/a-ficcao-de-evando-nascimento/>. Acesso em: 26 de novembro de 2015.

Evando existe

Por: José Castello

A teoria literária brasileira produziu pensadores respeitáveis. Nomes como os de Antonio Candido, Luiz Costa Lima, Silviano Santiago, Leyla Perrone Moisés, Flora Sussekind,Walnice Galvão enobrecem qualquer literatura. Entre eles alinho o de Alcir Pécora, com quem divido, aliás, uma grande paixão: pela obra e figura de Hilda Hilst. Seu trabalho de organização e apresentação da ficção e poesia de Hilda é, em si, um magnífico esforço crítico.
Acontece que a fronteira entre teoria e ficção é não só instável, mas problemática. Grandes escritores – penso em Cristovão Tezza e em seus preciosos estudos sobre Mikhail Bakhtin – são também competentes teóricos. Outros, como os argentinos Juan José Saer e Ricardo Piglia, mesmo sem adotarem os preceitos mais rigorosos da teoria, produzem pensamento de primeira qualidade a respeito de seu ofício. São inesgotáveis as aproximações possíveis entre literatura e pensamento, o que basta como prova de que a literatura está viva.
            Vista de longe, a teoria literária muitas vezes se assemelha a uma construção abstrata e enigmática que, em vez de aproximar-se, se afasta em velocidade de seu objeto. Isso em parte é verdade, e é justamente esse intervalo de suspeita que lhe assegura sua idoneidade e força críticas. Abstrações, conceitos, sistemas teóricos podem funcionar, contudo, como armaduras com que pensadores se defendem de poemas e ficções. A crítica é um caminho bifurcado que conduz tanto ao coração da obra quanto à sua negação peremptória.
No recente debate produzido pelo “Prosa” a respeito das relações entre a crítica e aliteratura hoje, identifiquei-me, em particular, com a posição do escritor João Paulo Cuenca. Sobretudo quando ele, referindo-se às teses vigorosas de Pécora, reage assim: “A gente pode discutir isso: se eu existo, se ele existe, mas sem que isso signifique que a gente se odeia”. Cuenca toca em um ponto que considero crucial: a diferença entre o debate de ideias e luta de vaidades e prestígio. Infelizmente, também as fronteiras entre eles oscila. Críticas vigorosas são reduzidas, de ambos os lados, a ofensas pessoais. O que representa a morte, por banalização, da literatura e de sua crítica.
Não só a crítica tem muito a dizer a respeito da ficção: a ficção também tem muito a dizer a respeito da crítica. Penso nisso enquanto leio Cantos do mundo (Record), coletânea de contos de Evando Nascimento. Não é possível ignorar a existência de Evando: ele não só existe como afirma sua existência através de uma escrita inconfundível, que não se contenta em ser mera distração ou devaneio, mas se apresenta como um lugar de dúvida e interrogação ferozes. Ela expande, assim, as fronteiras da própria literatura (e, por isso, é excelente literatura), avançando sobre as coisas do mundo para desafiá-las.
Um conto, em particular, me ajuda a pensar o debate entre críticos e escritores. Falo de “O dia em que Walter Benjamin daria aulas na USP”. O relato de Evando simula uma carta que o filósofo Walter Benjamin teria enviado ao amigo Erich Auerbach. Datada de junho de 1940, três meses antes de sua morte real, a carta fictícia prolonga sua vida verdadeira. Ele a escreve de malas prontas para embarcar para o Brasil, aceitando um convite para dar aulas de literatura alemã na Universidade de São Paulo.
A ficção de Evando Nascimento invade e fertiliza o território da crítica. Benjamin deve partir antes que o nazismo o esmague. Guarda a esperança de que, nos trópicos, resista algum vestígio da herança civilizatória que os europeus construíram e que Hitler se empenha em destruir. Mas o filósofo personagem não se engana: conhece bem a alma dividida que carregamos. Evando o leva a confessar suas aflições: despede-se com tristeza de “tudo isso que a civilização ergueu como monumento contra a barbárie, mas que guarda também em si o rastro da barbárie cometida para que a civilização fosse erguida”.
É muito fácil (ainda que verdadeiro e necessário) olhar para Hitler e dizer: “Monstro”. Muito mais difícil é admirar as telas da Renascença, os castelos da Alemanha, as avenidas de Paris e pensar: “Sob essa beleza algo de monstruoso também se guarda”. A crítica mais dolorosa é a crítica a si mesmo. O Benjamin de Evando é um brilhante teórico que não a teme. “A estrada é estreita, a via de mão única não tem saída, há desvios e obstáculos por toda parte, nem sei mais quem sou.” Duvida da própria existência. Eis o mais difícil: falar não do desaparecimento alheio, mas do próprio desaparecimento. Aceitar que, muitas vezes, é só com grande esforço e aflição que sustentamos aquilo – que somos? Melhor dizer: que tentamos ser. Escritores sabem que existem – seus escritos aí estão, como provas. Mas conhecem também a grande falha que sustenta essa existência. É com a mesma fragilidade, mas também com fome de existir, que os críticos literários trabalham.
O Benjamin de Evando me ajuda a pensar: “É preciso ter um alvo, mirada ou meta, não se pode viver sem destino”. Pécora precisa dizer: “Sou crítico”. Cuenca e Evando, por sua vez: “Sou escritor”. Com que precariedade eles sustentam essas afirmações. E que beleza, e grandeza, essa precariedade lhes empresta! É só com grande esforço que sustentamos uma posição no mundo. Que sustentamos um nome. Estamos, todos, confinados nas cavernas escuras do singular. Mesmo no mundo das cópias e das reproduções em série, a existência humana se desenrola na primeira pessoa. O plural é só um recurso a que nos apegamos para escapar da solidão. Vivemos naquela fronteira, diz o Benjamin de Evando, “que permanece ali, não como uma última e suspirosa essência, ou digamos uma misteriosa aura, mas como um dado irreproduzível, único”. É essa marca indefinível que distingue Walter Benjamin de todos os outros Walter. É ela também que torna críticos e ficcionistas insubstituíveis. “Não há essência, só modos de estar”, insiste o filósofo personagem. O amor ao único é, entre todas as tarefas humanas, a mais difícil. Daí a necessidade de ler ficções como as de Evando Nascimento, que nada nos prometem exceto a certeza de existir.

(30/04/2011)

REFERÊNCIAS


CASTELLO, José. Sábados Inquietos. Brasília: Leya, 2013.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Características do Símbolo

Por: Diego Coelho

    Fazendo um contraponto com o conceito de alegoria pode-se dizer que o símbolo é contrário a tudo que a alegoria representa. O símbolo é da ordem da lei e das regras, ele prende, torna estático, serve de elemento unificador para as massas através de um referente comum. Em outras palavras o símbolo é preso ao seu próprio referente, diferente da alegoria que pode ser utilizada para transmitir sentidos independentes de seu referencial o símbolo é restrito por sua própria forma.
    Para Benjamin o símbolo ao contrário da alegoria não se dá por conta dos fenômenos históricos. Para ele seria possível entender o símbolo como signo das ideias, autárquico, compacto, sempre igual a si mesmo. Ele é finito por seus sentidos, estático e transparente por não ser capaz de despertar nada. O símbolo remete a uma ideia fixa e cristalizada. Ainda segundo Benjamin o símbolo nada comunica, nada significa ele apenas torna transparente e identifica algo que está para além de toda expressão.



REFERÊNCIAS


BENJAMIN, Walter. “Alegoria e drama barroco” in Origem do Drama Barroco Alemão. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1984.

LINO, Joselita Bezerra da Silva. “Considerações sobre a alegoria” in Dialegoria. A alegoria em Grande Sertão: veredas e em Paradiso. João Pessoa: Idéia, 2004.

JUNKES, Lauro. "O processo de alegorização em Walter Benjamin" . Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/literatura/article/view/5361

O Símbolo para Benjamin

Por: Diego Coelho

      O símbolo mantém maior afinidade com o "nome". Se, para esclarecer a noção de símbolo, Benjamin (1984,p.187) parte das teorias de Görres e sobretudo de Creuzer, para quem "a medida temporal da experiência simbólica e o instante místico, na qual o símbolo recebe o sentido em seu interior oculto e por assim dizer, verdejante", então o símbolo tende a negar a presença e a participação de qualquer sujeito constituidor do sentido, tendo tornado o seu sentido no "interior", ou seja, tem ele sentido intrínseco, extinguindo-se a subjetividade (do criador). O símbolo, mesmo criado por um sujeito, então expressa seu sentido da mesma maneira que as coisas criadas por Deus, simbolizando a identidade original da coisa-sentido e da palavra-sentido no nome. Seu sentido não é arbitrário nem provém da relação subjetivamente estabelecida entre o símbolo e o simbolizado, mas resulta duma conexão objetivamente dada e necessária. Nega ele seu caráter semiótico, buscando uma união bidimensional da palavra e da coisa, excluindo e renunciando a participação de qualquer subjetividade.



REFERÊNCIAS


BENJAMIN, Walter. “Alegoria e drama barroco” in Origem do Drama Barroco Alemão. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1984.

LINO, Joselita Bezerra da Silva. “Considerações sobre a alegoria” in Dialegoria. A alegoria em Grande Sertão: veredas e em Paradiso. João Pessoa: Idéia, 2004.

JUNKES, Lauro. "O processo de alegorização em Walter Benjamin" . Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/literatura/article/view/5361

O que é Símbolo?

Por: Diego Coelho

     O termo símbolo, com possível origem no termo grego symbolon, designa um tipo de signo em que o significante (realidade concreta) representa algo abstrato (religiões, nações, quantidades de tempo ou matéria, etc.) por força de convenção, semelhança ou contiguidade semântica (como no caso da cruz que representa o Cristianismo, porque ela é uma parte do todo que é imagem do Cristo morto).
     O "símbolo" é um elemento essencial no processo de comunicação, encontrando-se difundido pelo quotidiano e pelas mais variadas vertentes do saber humano. Embora existam símbolos que são reconhecidos internacionalmente, outros só são compreendidos dentro de um determinado grupo ou contexto (religioso, cultural, etc.). Ele intensifica a relação com o transcendente.
     A representação específica para cada símbolo pode surgir como resultado de um processo natural ou pode ser convencionada de modo a que o receptor (uma pessoa ou grupo específico de pessoas) consiga fazer a interpretação do seu significado implícito e atribuir-lhe determinada conotação. Pode também estar mais ou menos relacionada fisicamente com o objeto ou ideia que representa, podendo não só ter uma representação gráfica ou tridimensional como também sonora ou mesmo gestual.

REFERÊNCIAS


BENJAMIN, Walter. “Alegoria e drama barroco” in Origem do Drama Barroco Alemão. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1984.

LINO, Joselita Bezerra da Silva. “Considerações sobre a alegoria” in Dialegoria. A alegoria em Grande Sertão: veredas e em Paradiso. João Pessoa: Idéia, 2004.

JUNKES, Lauro. "O processo de alegorização em Walter Benjamin" . Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/literatura/article/view/5361

Ruína e Alegoria

Por: Nicolas Peixoto

     Em suas reflexões, Walter Benjamin volta-se para o passado não apenas com o olhar que compreende  o passado como construtor do presente, mas com o conhecimento de que o presente reconstrói o passado. Em geral, o passado é representado pela ruína, a felicidade perdida que mostra uma felicidade possível, causando frustração e melancolia no agora. A partir desse raciocínio, Flávio Kothe pensa a história como uma ruína.
     De fato, a história linear, contada pelos "vencedores", é a ruína: o fato que nos é contado silencia as outras vozes. Por sua vez, a alegoria dá voz ao oprimido, ao ofuscado. Podemos pensar então a literatura como uma alegoria, pois é a história do outro que não houve (como podemos ver no conto "A primeira comunhão de Afonso Ribeiro", de Alberto Mussa).
     Assim, é por este motivo que a alegoria a partir de Benjamin torna-se uma espécie de chave, pois ela é uma expressão que nos permite compreender a modernidade, já que torna visível tudo o que foi rejeitado ou esquecido pela história oficial.



REFERÊNCIAS


BENJAMIN, Walter. “Alegoria e drama barroco” in Origem do Drama Barroco Alemão. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1984.

KOTHE, Flávio. Para Ler Benjamin. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976.

LINO, Joselita Bezerra da Silva. “Considerações sobre a alegoria” in Dialegoria. A alegoria em Grande Sertão: veredas e em Paradiso. João Pessoa: Idéia, 2004.

PEREIRA, Marcelo de A. “Barroco, Símbolo e Alegoria em Walter Benjamin”. Disponível em: revistas.unicentro.br/index.php/analecta/article/download/1806/1602


SELIGMANN-SILVA, Márcio. “Walter Benjamin” in A Atualidade de Walter Benjamin e Theodor W. Adorno. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.

Barroco, Morte e Alegoria

Por: Nicolas Peixoto

     No período barroco, temos a morte como principal alegoria. Em sua obra Origem do Drama Barroco Alemão, Walter Benjamin afirma que a morte não é apenas mais uma categoria estética barroca, mas sim o seu tema principal. Ela tem uma função paradoxal: matar e salvar o objeto, ao mesmo tempo.
     Desse modo, o alegorista é capaz de transformar o vivo em morto. Segundo Joselita Lino, o alegorista fala em paraíso querendo dizer cemitério; fala de uma bela mulher querendo dizer esqueleto. Assim, a morte no barroco significa a história.
     Portanto, podemos compreender a morte como a verdadeira estrutura da alegoria. Para que um objeto ganhe propriedade alegórica, ele deve ser privado de sua vida. Dessa forma, a harpa morre para virar um machado, por exemplo. O trabalho do alegorista é então o de matar o objeto; e assim este pode irradiar qualquer sentido.



REFERÊNCIAS


BENJAMIN, Walter. “Alegoria e drama barroco” in Origem do Drama Barroco Alemão. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1984.

KOTHE, Flávio. Para Ler Benjamin. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976.

LINO, Joselita Bezerra da Silva. “Considerações sobre a alegoria” in Dialegoria. A alegoria em Grande Sertão: veredas e em Paradiso. João Pessoa: Idéia, 2004.

PEREIRA, Marcelo de A. “Barroco, Símbolo e Alegoria em Walter Benjamin”. Disponível em: revistas.unicentro.br/index.php/analecta/article/download/1806/1602

SELIGMANN-SILVA, Márcio. “Walter Benjamin” in A Atualidade de Walter Benjamin e Theodor W. Adorno. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.

Sobre a Alegoria

Por: Nicolas Peixoto

    O termo "alegoria" é encontrado já em Platão, mas foi Aristóteles quem primeiro buscou um conceito. Na Roma Antiga, Cícero e Quintiliano discutiram sobre o tema, e este último desenvolveu uma visão interessante: Quintiliano analisa a alegoria a partir da etimologia. "Alegoria", do grego, deriva de "allos ","outro", e "agoureuein", "falar na ágora", usar a linguagem pública. Assim, temos que, falar alegoricamente é dizer uma coisa para significar outra.
     Ocorre que, de acordo com João Adolfo Hansen, os padres medievais enxergavam desta maneira a alegoria. Hansen explica que a alegoria é um procedimento retórico capaz de afirmar uma presença in absentia. Segue assim de um exemplo: na ode XIV de Horácio, à República, temos "nave sem velas" para significar "república sem governo", aproximando a alegoria da metáfora.
     Porém, diante desses conceitos, como Benjamin se coloca? Ele modernamente diz que a alegoria é uma figura pela qual se diz algo querendo significar outra coisa, mas se opõe aos pensadores que enxergam nela apenas significação. Para o filósofo alemão, a alegoria é uma expressão, assim como a linguagem e a escrita.
     Assim, Benjamin argumenta que a alegoria está em uma relação dialética, mergulhada no abismo que há entre o "Ser visual" ("a coisa") e a significação ("o outro"). Portanto, diferentemente do que os gregos e romanos clássicos afirmavam, a alegoria não é apenas significação, mas o que há entre os dois elementos. Ela é autêntica ao ser da ideia e ao ser linguístico concomitantemente: eis aí a alegoria em Benjamin.



REFERÊNCIAS


BENJAMIN, Walter. “Alegoria e drama barroco” in Origem do Drama Barroco Alemão. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1984.

KOTHE, Flávio. Para Ler Benjamin. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976.

LINO, Joselita Bezerra da Silva. “Considerações sobre a alegoria” in Dialegoria. A alegoria em Grande Sertão: veredas e em Paradiso. João Pessoa: Idéia, 2004.

PEREIRA, Marcelo de A. “Barroco, Símbolo e Alegoria em Walter Benjamin”. Disponível em: revistas.unicentro.br/index.php/analecta/article/download/1806/1602

SELIGMANN-SILVA, Márcio. “Walter Benjamin” in A Atualidade de Walter Benjamin e Theodor W. Adorno. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.